O inimigo número 1 da censura

Perfil de Ernesto Gomensoro para servir como prólogo à sua Antologia

Conto de Jorge Luis Borges e Adolpho Bioy Casares

Tradução de Caio Túlio Costa

Sobrepondo-me ao sentimento que o coração me dita, escrevo com a Remington este perfil de Ernesto Gomensoro, para servir como prólogo à sua Antologia. Por um lado tenho um certo remorso de não poder cumprir de modo cabal com a ordem de um defunto; por outro me dou o gostinho melancólico de retratar esse homem de valor que os pacíficos vizinhos de Maschwitz (1) ainda hoje recordam sob o nome de Ernesto Gomensoro. Não esquecerei muito facilmente daquela tarde em que ele me acolheu, com chá-mate e biscoitinhos, na varanda de sua casa, perto da linha do trem. A razão de eu me bandear até aquele fim de mundo foi a comoção natural de ter sido objeto de uma correspondência dirigida à minha casa, convidando-me a figurar na Antologia que ele então incubava. O fino olfato de tão extraordinário mecenas despertou meu sempre espevitado interesse. Ademais, quis tomar sua palavra ao vivo, sem arrependimentos, e decidi levar em mãos a colaboração, para evitar as clássicas demoras que se imputam aos nossos correios. (2)

A cabeça calva, o olhar perdido no horizonte rural, o rosto largo de barba grisalha, a boca em geral encaixada na bombilha do mate, o lenço asseado sob o queixo, o tórax de touro e um terno leve de linho mal passado constituíram meu primeiro instantâneo. Sentado na poltrona de vime, o atrativo conjunto de nosso anfitrião complementou-se rápido com a voz afável que me indicou o banquinho de cozinha para que eu me sentasse. Com a certeza de pisar caminho firme agitei o cartão-convite na frente de seus olhos, ufanista e tenaz.

– Sim – disse com displicência –, mandei a circular para todo mundo.

Semelhante sinceridade me desvaneceu.

Em tais casos, a melhor política é se congraçar com o homem que tem nossa sorte em suas mãos. Declarei-lhe com total franqueza que eu era repórter de artes e letras da Última hora e que meu verdadeiro propósito era consagrar-lhe uma reportagem. Não se fez de rogado. Pigarreou para limpar a garganta e disse com a sinceridade comum às figuras distintas:

– Avalio seu propósito de coração. Previno-o que não vou falar de censura, porque todo mundo anda repetindo que sou monotemático e que a guerra contra a censura se transformou em minha idéia fixa. Você rebaterá com a objeção de que hoje em dia poucos temas apaixonam tanto quanto este. Não é pra menos.

– Como o sei – suspirei –, o pornógrafo mais sem preconceito vê todo dia mais um bloqueio em seu campo de ação.

Sua resposta me deixou sem outro recurso que o de abrir a boca.

– Eu já maliciava que você agarraria por este lado. Reconheço prontamente que não é muito simpático falar em colocar restrições ao pornógrafo. Mas esse caso tão cacarejado não é mais do que café-com-leite, uma faceta do assunto. Gastamos tanta saliva contra a censura moral e contra a censura política que passamos por cima de outras variedades que são muito mais atentatórias. Minha vida, se você me permite chamá-la assim, é um exemplo pedagógico. Filho e neto de progenitores que foram invariavelmente justiçados pela mesa de exame me vi desde menino preparado para as mais diversas tarefas. Foi assim que me arrastou o redemoinho da escola primária, a corretagem de malas de couro e, em tempinhos roubados da faina diária, a composição de um ou outro verso. Este último fato, tão carente de interesse, atiçou a curiosidade dos espíritos inquietos de Maschwitz e não demorou a se espalhar e ganhar corpo no boca-a-boca. Senti, como quem vê subir a maré, que o povo em consenso, sem distinção de sexo nem idade, veria com alívio o fato de eu começar a publicar nos jornais. Semelhante apoio me impeliu a mandar pelos correios, para revistas especializadas, a ode En camino! A resposta foi a conspiração do silêncio, com a honrosa exceção de um suplemento que a devolveu sem nada dizer.

Aí pude ver o envelope, em uma moldura.

– Não me deixei desanimar. Minha segunda carga assumiu uma natureza maciça; remeti simultaneamente a não menos de quarenta órgãos o soneto En Belén e depois, continuando o bombardeio, as décimas Yo alecciono. Para a miscelânea literária (3) La alfombra de esmeralda e o novelinho (4) Pan de centeno lhes coube, você não vai acreditar, a mesma sorte. Esta estranha aventura foi acompanhada, em simpático suspense, pelas autoridades e pelo pessoal dos correios, que se apressaram em divulgá-la. O resultado era previsível: o doutor Palau me nomeou diretor do suplemento literário das quintas-feiras do diário La opinión.

Desempenhei essa magistratura civil durante quase um ano, quando me tiraram de lá. Fui, acima de tudo, imparcial. Caro Bustos, nada pode intranqüilizar minha consciência nas altas horas. Se somente uma única vez dei guarida a um filho de minha musa – o novelinho Pan de centeno, que deslanchou uma persistente campanha de oferecidos e anônimos – o fiz sob o pseudônimo de Capitão Nemo, numa alusão, que nem todos captaram, a Julio Verne. Não foi só por isso que me puseram no olho da rua; não teve um animal vivo que não me impingiu a culpa de que a edição das quintas-feiras era uma lata de lixo ou, se você preferir, a última farsa. Aludiam, quando muito, à qualidade ínfima das colaborações expostas. A acusação, sem dúvida, era justa; sem a compreensão do critério que me dei como bússola. Mais náusea do que dos piores críticos continuo tendo quando faço a leitura retrospectiva daqueles papeluchos sem tom nem som que eu sequer deixava o senhor gerente da gráfica folhear. Eu lhe falo, como você vê, com o coração nas mãos: passar do envelope à linotipo era automático e eu nem me dava ao trabalho de averiguar se eram em prosa ou verso. Peço-lhe que acredite em mim: meu arquivo guarda um exemplar no qual se repete duas ou três vezes a mesma fábula, copiada de Iriarte (5) e assinada de maneira contraditória. Anúncios de Chá Sol e de Erva Gato se alternavam gratuitamente com o resto das colaborações, não faltaram nem esses versinhos que os desocupados deixam no banheiro. Apareciam também nomes femininos da maior respeitabilidade, com o número do telefone.

Como já previa a minha senhora, o doutor Palau acabou encolerizando-se (6) e me disse cara-a-cara que a folha literária se acabou e que não podia me dizer que me agradecia pelos serviços prestados porque não estava de brincadeiras e que eu fosse embora no trote.

Sou-lhe sincero: para mim a demissão deve ser atribuída, por incrível que pareça, à publicação fortuita da notável miscelânea literária El malón, que revive um episódio muito querido na região, a devastadora incursão dos índios pampas, que não deixaram títere com cabeça. A história do flagelo foi posta em dúvida por mais de um iconoclasta de Zárate (7); o indiscutível é que insuflou os valentes versos de Lucas Palau, leiloeiro e sobrinho de nosso diretor. Jovem, quando você estiver para pegar o trem, o que falta pouco, eu te mostrarei a miscelânea literária a que aludi, porque a tenho emoldurada. Eu a havia publicado, segundo minha norma, sem fixar-me na assinatura nem no texto. O poeta, me disseram, investiu com outros versos que aguardavam sua vez e que não saíram porque nunca deixei de respeitar a ordem de chegada. Despropósito por despropósito, eu os ia postergando; o nepotismo e a impaciência venceram e então tive de encontrar a porta de saída. Retirei-me.

Em toda esta tirada Gomensoro falou-me sem amargura e com evidente sinceridade. Meu rosto exibia o reconhecimento de alguém que contempla um porco voando e levei um certo tempo para articular:

– Devo ser um obtuso, não o capto por inteiro. Quero entender. Quero entender.

– Ainda não chegou a sua hora – foi a resposta. Pelo que vejo você não é de uma região capaz de atrair todos os meus amores, mas obtuso – para repetir sua opinião, não menos objetiva do que severa – bem poderia sê-lo, por não ter entendido nada do que lhe estou afiançando. Mais um testemunho dessa difundida incompreensão foi o fato de a Comissão de Honra dos Jogos Florais, que tanta honra deram à nossa pujante localidade, ter me convidado para ser jurado da mesma. Não haviam entendido nada! Como era meu dever, declinei. A ameaça e o suborno se estilhaçaram contra minha decisão de homem livre.

Neste ponto, como quem já havia entregado a chave do enigma, sugou de novo o mate e se encastelou em seu foro interior.

Quando se esgotaram os biscoitos atrevi-me a sussurrar com voz de flauta:

– Não consigo, meu chefe, compreendê-lo.

– Tudo bem, colocarei em palavras do seu nível. Aqueles que socavam com a pena as bases dos bons costumes ou do Estado não desconhecem, ou melhor, expõem-se a enfrentar frente a frente o rigor da censura. Este fato é inqualificável, mas comporta certas regras de jogo e aquele que as infringe sabe o que faz. Por outro lado vejamos o que se passa quando você aparece numa redação com um original que é, por onde se quiser olhá-lo, uma verdadeira salada. Lêem-no, devolvem-no e lhe dizem que o coloque onde quiser. Aposto que você sai com a certeza de que fizeram de você a vítima da mais desapiedada censura. Suponhamos agora o inverossímil. O texto submetido por você não é uma cretinice e o editor o leva em consideração e manda imprimi-lo. Bancas e livrarias o colocarão ao alcance dos incautos. Para você, tudo é êxito, mas a irretorquível verdade, meu estimado jovem, é que o seu original, mal-jeitoso ou não, passou pela humilhação (8) da censura. Alguém o observou, mesmo que apenas de uma olhada, que tenha só dado uma olhada, alguém o julgou, alguém o meteu num baú ou encaminhou para a tipografia. Por mais infamante que pareça, este fato se repete continuadamente, em todo jornal, em toda revista. Sempre topamos com um censor que elege ou descarta. É isso o que não agüento nem agüentarei. Você começa a entender meu critério quando eu estava na direção do Suplemento? Nada revisei nem julguei; tudo encontrou guarida no Suplemento. Nestes dias a sorte, na forma de uma súbita herança, acabou me permitindo confeccionar a Primeira antologia aberta da literatura nacional. Assessorado pela lista telefônica e outros guias dirigi-me a todas as pessoas vivas, você inclusive, solicitando que me mandem aquilo que lhes dá ganas. Observarei, com a maior eqüidade, a ordem alfabética. Fique tranqüilo: tudo sairá em letra de imprensa, por mais porcaria que seja. Não quero retê-lo. Já estou ouvindo o apito do trem que vai reintegrá-lo à sua faina diária.

Saí daquela vez pensando em quem me havia dito que essa primeira visita a Gomensoro seria também a última. O diálogo cordial com o amigo e mestre não voltaria a acontecer, ao menos nesta margem da lagoa Estige (9). Meses depois a Parca (10) o arrebatou de sua casa de Maschwitz.

Com sua repugnância a qualquer ato que envolvesse um mínimo de eleição, me disseram que Gomensoro embaralhou em uma barrica os nomes dos colaboradores e desta tômbola saiu agraciado meu nome. Tocou-me uma fortuna cujo montante superava meus mais brilhantes sonhos de cobiça, sob a única obrigação de publicar com brevidade a antologia completa. Aceitei com o apuro que era de se supor e me transladei até a casa que me acolhera onde me cansei de contar galpões cheios de manuscritos que já beiravam a letra C.

Senti como se tivesse sido atingido por um raio quando conversei com o gráfico. Mesmo em papel serpentina e em letra de lupa a fortuna deixada não dava para passar além de Añañ!

Já publiquei em brochura toda essa fornada de volumes. Os excluídos, de Añañ para frente, me deixam meio louco com processos e querelas. Meu advogado, o doutor González Baralt, alega em vão, como prova de retidão, que eu também, cujo nome começa com B, fiquei fora, para não falar da impossibilidade material de incluir outras letras. Ele me aconselha, neste ínterim, que eu busque refúgio no hotel O Novo Imparcial, com um nome falso.

Notas

(1) Cidade argentina. [N.d.T.]

(2) O texto que levei foi “El hijo de su amigo”, que o investigador encontrará no corpus deste volume, à venda nas boas livrarias. [Nota dos autores]

(3) “Silva”, traduzido aqui como miscelânea literária: composição poética em que se alternam versos de dez sílabas com versos de seis sem rima certa e regular e admitindo até alguns versos soltos. [N.d.T.]

(4) Novelinho (“ovillejo”) é uma combinação métrica de três versos octassílabos, cruzados com três pés-quebrados que rimam com os versos e de uma redondilha final cujo último verso se compõe dos três pés-quebrados. [N.d.T.]

(5) Provavelmente Tomás Iriarte (1750 -1791) [N.d.T.]

(6) No original “montar el picazo”, que significa encolerizar-se na expressão argentina. [N.d.T.]

(7) Cidade ao norte de Buenos Aires. [N.d.T.]

(8) “Uno pasó pelas horcas caudinas de la censura”, em sentido figurado, quer dizer que alguém sofreu a vergonha de fazer por força o que não queria. [N.d.T.]

(9) Na mitologia grega a lagoa Estige separava o reino dos vivos do reino dos mortos. [N.d.T.]

(10) Parca: na mitologia grega é cada uma das três deusas (Cloto, Láquesis e Átropos) que determinam o curso da vida humana, em sentido figurado significa a morte. [N.d.T.]

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Publicado em BORGES, Jorge Luis & BIOY CASARES, Adolfo. Nuevos cuentos de Bustos Domecq. Madri. Siruela, 1986. Traduzido por Caio Túlio Costa em 2003 para uso no curso de Ética Jornalística.

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