Imprensa, estupidez, política

Quarto capítulo do livro de aforismos Ditos e Desditos, de Karl Kraus (São Paulo: Brasiliense, 1988). Sprüche und Widerspüche em alemão, foi traduzido para o português por Márcio Suzuki e Werner Loewenberg. Alguns dos aforismos transcritos abaixo, no entanto, incorporam revisões de Caio Túlio Costa feitas com base na tradução para o inglês de Jonathan McVity, cuja numeração foi adotada. Veja também notas explicativas ao final do texto.

Karl Kraus

368 – Primeiro é preciso que as instituições humanas se tornem tão perfeitas que possamos ponderar sossegadamente quão imperfeitas são as divinas.

369 – A vida mecânica estimula, o ambiente artístico paralisa a poesia interior.

370 – O quê? A humanidade estupidificada em prol do progresso mecânico, e nós nem sequer deveríamos tirar proveito? Devere­mos manter diálogo com a estupidez se podemos dela fugir num automóvel?

371 – A arte é, para o filisteu, enfeite para a fadiga e para o tormento cotidiano. Ele abocanha o ornamento como o cão a salsicha.

372 – A gentalha visita locais “que merecem ser vistos”. Simplesmente continua-se a se perguntar se o túmulo de Napoleão merece ser visto pelo Sr. Schulze [equivale ao Sr. Silva no Brasil],  mas jamais se pergunta se o senhor Schulze merece vê-lo.

373 – O filisteu vive num presente ornado de curiosidades; o artista se empenha num passado mobiliado com todo o conforto dos tempos modernos.

374 – O progresso mecânico só vem em proveito da personalidade que, além dos obstáculos da vida exterior, chega mais rapida­mente a si mesma. Mas os cérebros medianos não estão à altura de tal hipertrofia. Ainda hoje não se pode fazer a menor idéia da devastação provocada pela imprensa. O dirigível é descoberto, mas a imaginação rasteja como uma diligência. Automóvel, telefone e grandes tiragens da estupidez – quem pode dizer como serão formados os cérebros daqui a duas gerações? A retração da fonte natural que opera a máquina, a repressão da vida pela leitura e a absorção de toda possibilidade artística pelo espírito factual terão concluído sua obra com uma rapidez espantosa. O despontar de uma nova era glacial só poderia ser entendido nesse sentido. Nesse meio tempo, que se permita to­da política social, que a deixem ser ativa em suas pequenas ta­refas; que lhe seja permitido lidar com a instrução do povo e outros substitutivos e opiatos. Passatempo até a dissolução. As coisas tomaram um rumo para o qual não há exemplo em ou­tras épocas historicamente observáveis. Quem não sente isso em cada nervo pode tranquilamente manter a cômoda divisão de Antiguidade, Idade Média e Idade Moderna. De repente, perceber-se-á que não se vai adiante. Pois esse moderníssimo tempo iniciou a produção de máquinas novas para fazer funcio­nar uma ética antiga. Nos últimos trinta anos aconteceram mais coisas que, antes, em trezentos. E um dia a humanidade se sacrificará pelas grandes obras que produziu para o seu alívio.

375 – Estávamos complicados o bastante para construir a máquina e somos demasiados primitivos para nos servirmos dela. Impeli­mos um tráfego mundial em vias cerebrais de bitola estreita.

376 – Política social é a decisão desesperada de efetuar num canceroso uma extração de calo.

377 – Quando a armação do telhado pega fogo, não adianta rezar nem esfregar o chão. Em todo caso, rezar é mais prático.

378 – O que a sífilis poupou será devastado pela imprensa. Nos amolecimentos cerebrais do futuro, a causa não poderá ser determinada com precisão.

379 – Nossa cultura consiste de três gavetas: trabalho, lazer e instrução; quando uma está aberta, as outras se fecham. Os prestidigitadores chineses dominam toda a vida com um único dedo. Terão, portanto, o jogo nas mãos. A grande esperança amarela!

380 – Existe um continente sombrio que envia descobridores.

381 – Humanidade, instrução e liberdade são bens preciosos que não foram comprados por sangue, juízo e dignidade humana a um preço suficientemente alto.

382 – A democracia divide os seres humanos em trabalhadores e ociosos. Ela não foi instituída para aqueles que não têm tempo para o trabalho.

383 – O que faz X? Mantém-se ocupado com o espírito mundial de Goethe na agitação do tear do tempo.

384 – Humanitarismo é uma decepção física que ocorre com inevitabilidade natural. Pois o liberalismo coloca sempre sua luz sob urna campânula de vidro e acredita que ela arderá no vácuo. Mais provavelmente arderia na tempestade da vida. Quando o oxigeno acaba, a luz se extingue. Mas felizmente a campânula se encontra na água do palavreado que sobe justamente no momen­to em que a vela se apaga. Se levantarmos a campânula, só então perceberemos as reais qualidades do liberalismo. Ele fede a hidrocarboneto.

385 – Toda gesticulação e palavrório dos chamados homens sérios não teria sido possível nos quartos de criança dos séculos passa­dos. Nos quartos de criança de hoje, o argumento do açoite no mínimo causa ainda impressão. Mas os direitos humanos são o brinquedo quebrável dos adultos que o querem espezinhar e que, por isso, não deixam que o tomem. Se fosse permitido chicotear, isso se faria com muito menos frequência do que se tem vontade agora. Em que, pois, consiste o progresso? Suprimiu-se o prazer de chicotear? Não, apenas o chicote. Na época da servidão, o medo do chicote era o contrapeso do seu prazer. Hoje ele já não tem contrapeso, mas, em compensação, uma espora na ufania progressista, com a qual a estupidez proclama seus direitos humanos. Bela liberdade: simplesmente não ser chicoteado!

386 – Quando ainda não havia direitos humanos, os favorecidos os possuíam. Isso era desumano. Depois se estabeleceu a igualda­de, privando os favorecidos dos direitos humanos.

387 – Quando alguém está diante do tribunal, não há por certo nenhum fato dos chamados antecedentes com o qual não se possa causar instantaneamente uma “impressão desfavorável” e proporcionar à justiça aquele “movimento” que registra o relato da sala de audiências. E inacreditável como os delitos realmente assediam uma pessoa que, alguma vez, cometeu um deles! Projetado no lapso de tempo de um processo judicial, aquilo que se repartiu em quarenta anos atua como uma ilustração viva; aquilo que passou pelo crivo do tempo alcança uma atua­lidade reforçada, como se tivesse acontecido durante a prisão preventiva. Isto não só elucida o crime, com o qual não tem nada a ver, mas também é elucidado pelo crime, e o perfil moral do acusado está sempre espelhado de dois lados. Eis o método que se adapta venturosamente ao pensamento bitolado de cabeças medíocres judicantes. Isto se chama comprimir uma pessoa perdida sob o banco dos réus.

388 – Quem é ela? É cega ante o Direito, fica estrábica ante o poder e sofre de exoftalmia ante a moral. E por causa dos belos olhos dessa mulher sacrificamos a nossa liberdade!

389 – Não basta a mera exortação para que os magistrados julguem com toda a ciência e consciência. É preciso também promulgar instruções de como a ciência pode ser pequena e a consciência, grande.

390 – O parlamentarismo é o aquartelamento da prostituição política.

391 – A política proporciona as tensões de um romance policial. As gestões da diplomacia oferecem o espetáculo de como os Esta­dos são perseguidos com mandado de prisão por uma quadrilha internacional de criminosos.

392 – Política é efeito cênico. Quando Shakespeare cruzava as fronteiras, para o público o barulho das armas ainda se sobrepunha aos pensamentos. A dimensão de Bismarck, o qual molda a matéria política numa forma criativa – e por que a ocorrência mais terrena não deveria resultar em criação para um artista? –, é aferida com a medida da ação teatral, dos efeitos das entra­das e saídas. E se nós alemães tememos a Deus como a nada mais no mundo, respeitamo-Lo não por Sua personalidade, mas pelo barulho de Seus trovões. Política e teatro: o ritmo é tudo; o significado, nada.

393 – Considero a política uma maneira de dar cabo da seriedade da vida pelo menos tão excelente quanto o jogo do tarô; e assim como há pessoas que vivem do tarô, o político profissional é também um fenômeno perfeitamente compreensível. Tanto mais que o político profissional só ganha às custas daqueles que não jogam. No entanto, é justo que o espectador político tenha de pagar se a observação paciente forma o conteúdo de sua vida. Se não houvesse política, o cidadão só teria sua vida interior, ou seja, nada que pudesse realmente ocupá-lo.

394 – Para se orientar em questões políticas bastam as lembranças das operetas. Aquilo que se pode dizer em detrimento do regime absolutista nos foi ensinado pela figura de um rei Bobèche, de um príncipe herdeiro Casimiro ou de um general Kantschu­koff. Se a exigência dos fraseólogos – de que a arte se ocupe com os assuntos públicos – deve ter algum sentido, este só pode se referir à produção de operetas. Esta, com razão, merece a censura de ter desprezado há decênios os únicos assuntos humanos que não devem ser levados a sério, ou seja, os assuntos públicos. Pois a forma artística da opereta é aquela que está adequada à essência de todos os desenvolvimentos políticos, já que confere à estupidez a inverossimilhança redentora. É tolo exigir que a criação artística se lance de outro modo sobre os acontecimentos recentes; e mesmo a sátira os desdenha, pois ela, sem dúvida, pode apreender o ridículo da política, mas os ridículos dentro da política se processam abaixo do nível de uma consideração chistosa, no sentido mais elevado do termo.

395 – Quem, além dos políticos que as cometem, lamenta as asneiras na política? Serão, pois, as sagacidades na política mais sagazes?

396 – “Preferimos suportar os males que já temos, a fugirmos para outros que desconhecemos.” Mas ainda não entendo como a justificativa do regime monárquico pode chegar ao entusiasmo.

397 – Quando um carro passa, o cão continua a fazer o seu protesto, apesar da inutilidade reconhecida há tanto tempo. Isso é puro idealismo, ao passo que a intransigência do político liberal nunca late para o carro do Estado sem fins interesseiros.

398 – O páthos liberal alemão é uma mistura de pesquisa sem pré-requisitos e corpo de bombeiros voluntários.

399 – O segredo do agitador é fazer-se tão estúpido quanto seus ouvintes para que eles acreditem ser tão inteligentes quanto ele.

400 – Crianças brincam de soldado. Isso faz sentido. Mas por que soldados brincam de criança?

401 – O Esporte é um filho do progresso e contribui já de próprio punho para a estupidificação da família.

402 – A missão da imprensa é a de difundir o espírito e, ao mesmo tempo destruir toda a capacidade de assimilação.

403 – O jornalismo serve apenas aparentemente ao dia-a-dia. Na verdade, destrói a receptividade espiritual da posteridade.

404 – A multiplicação só é um progresso à medida que possibilita a difusão do simples.

405 – Quando se pensa que a mesma conquista técnica serviu à Crítica do Razão Pura e ao relato de uma viagem dos Meninos Cantores de Viena, toda a discórdia se afasta da alma e louva-se a onipotência do Criador.

406 – Levar as pessoas a crer que um X é um U [expressão idiomática que significa lograr, enganar, ver nota ao final do texto] – onde está o jornal que confessa esse erro de impressão?

407 – Quando se trata de religião, conta-me um viajante do Oriente, não há nenhuma propina. No Ocidente, pode-se dizer o mes­mo em louvor da imprensa liberal.

408 – Com meu estreito horizonte, não li certa vez um jornal que tinha artigos com estes títulos: As negociações secretas entre Áustria, França e Itália em 1869; O movimento reformista da Pér­sia; A nomeação de chefes da seção croata; A Sublime Porta contra o metropolita de Monastir… Depois de não ter lido esse jornal, senti meu horizonte um pouco mais alargado.

409 – A providência de uma época ímpia é a imprensa, que elevou mesmo a crença numa onisciência e onipresença à categoria de convicção.

410 – Tempo e espaço se tornaram as categorias kantianas do sujeito jornalístico.

411- Os jornais têm mais ou menos a mesma relação com a vida que as cartomantes com a metafísica.

412 – O cabeleireiro conta novidades quando deve simplesmente cortar o cabelo. O jornalista é espirituoso quando deve simplesmente contar novidades. Aqui estão dois que aspiram mais alto.

413- Jornais humorísticos são uma prova de que o filisteu não tem humor. Eles são parte do sério da vida, como a bebida é parte da refeição. – Traga-me todos os jornais humorísticos – ordena ao garçom um imbecil cheio de cuidados e se esforça para que um sorriso surja em seu rosto. É preciso que o humor que não possui lhe chegue de todos os recantos da vida, e desdenharia mesmo uma caixa de fósforos que não trouxesse um gracejo no rótulo. Li numa dessas caixas: O aprendiz (que comprou uma salsicha embrulhada casualmente num poema): – Muito bem! Primeiro como a salsicha para nutrir o corpo, depois leio o poema para nutrir o espírito. – Tais coisas alegram o filisteu, que nem mesmo percebe o método do aprendiz como alusão.

414 – O espiritismo é a metafísica dos companheiros de mesa. É compreensível que se deva sacudir primeiro uma mesa de frequentadores se a meta é que o espírito se apresente. O desmascaramento de um médium é uma diversão para aqueles que, de outro modo, conseguem quando muito desmascarar um mirão. O espiritismo é o delírio dos paquidermes. Só as pessoas a quem a espiritualização está tão longe da matéria quanto o funambulismo do elefante sucumbirão com o tempo à necessidade de materializar os espíritos.

415. Há falta de caixeiros. Todos correm para o jornalismo.

416 – O descanso dominical cristão deveria pelo menos poder ser usado para reflexão. Inclusive para a reflexão sobre o descanso dominical. Daí deveria resultar o reconhecimento de como é necessária a completa automatização da vida exterior. Quem hoje goza o descanso dominical? Além dos vendedores, as mercadorias. Para os compradores, ele cria incômodos. No domingo, os charutos repousam nas tabacarias, as frutas nas quitandas e o presunto nas mercearias. Passam bem. Mas nós também queremos passar bem, e justamente no domingo nos privam dos charutos, das frutas e do presunto. Se a santificação do domingo consistisse na abstinência dos meios de prazer, o descanso dominical dos meios de prazer faria sentido. Como ela pretende apenas aliviar os vendedores, ela é antissocial, certamente não em sua tendência, mas em sua consequência. Com efeito, neste país seria até possível que as máquinas automáticas não funcionassem aos domingos, porque é precisamente descanso dominical, e nos dias úteis, porque estão avariadas.

417 – Que padeiros e professores façam greve é algo que tem sentido. Mas se recusar a receber o alimento corpóreo ou espiritual é grotesco. A não ser que isto ocorra porque se suspeita que o alimento esteja adulterado. A coisa mais ridícula do mundo é uma greve de fome cultural. Estou de acordo com o fechamento das universidades; mas ele não deve ocorrer por meio de greve. Tal fechamento deve ser concedido espontaneamente, não obtido à força.

418 – Quando um príncipe deve ser homenageado, fecham-se as escolas, paralisa-se o trabalho e interrompe-se o trânsito.

419 – A ortodoxia da razão estupidifica mais a humanidade que qualquer religião. Enquanto pudermos imaginar um paraíso, as coisas estarão bem melhores para nós do que se tivermos de viver exclusivamente na realidade de uma redação de jornal. Nela, podemos honrar a crença de que o homem descende do macaco. Mas seria uma pena ter curado uma loucura que também era uma obra de arte.

420 – Se, de repente, um padre declara que não acredita no paraíso e que jamais desmentirá tal declaração, então se entusiasma a imprensa liberal, cujos redatores, como se sabe, por nenhum preço renunciam à sua convicção. Mas será que um papa da imprensa não dispensaria imediatamente, a divinis, um empregado a quem ocorresse a idéia de reconhecer ante os leitores que acredita no paraíso? Este é o espetáculo mais repugnante oferecido pela modernidade: um padre possuído pelo demônio da razão cercado pelos latidos dos cães da imprensa aos quais ele lança a costela de Adão.

421 – É para mim enigmático como um teólogo possa ser louvado por ter conseguido, após muito esforço, não mais acreditar nos dogmas. O verdadeiro reconhecimento como herói sempre me pareceu ser mérito daqueles que conseguiram, após muito esforço, acreditar nos dogmas.

422- Para quem o acreditar não significa mais do que o não saber nada, é possível sacudir ostensivamente a cabeça sobre os dogmas. Mas é deplorável ter de se superar para chegar a um pon­to de vista que um professor auxiliar de física chegou há muito tempo.

423 – Os modernistas são os únicos católicos ortodoxos que ainda existem. Acreditam mesmo que a Igreja acredita nos dogmas que proclama e acreditam que o que importa é a crença daqueles que têm de difundi-la.

424 – O clericalismo é o reconhecimento de que o outro não é religioso.

425 – Ainda hoje em Echternach, Luxemburgo, se celebram as chamadas “procissões do salto”. Como, outrora, o gado foi acometido pela dança de São Guido, os camponeses locais fizeram então promessa de, em lugar do gado, saltar em louvor de São Willibrord. Hoje nem homens nem gado sabem as causas de tão singular cerimônia, mas aqueles se mantêm fiéis a ela e se a força do hábito se conservar entre os habitantes de Echternach, então talvez um dia será de novo a vez de o gado saltar em louvor a São Willibrord. Ainda hoje são os homens, quase quinze mil, que, por volta de Pentecostes, saltam “três passos para frente, dois passos para trás”. O clero não salta junto, mas observa. Ele não se satisfaz inteiramente com o espetáculo; pois preferiria que fossem dois passos para frente e três para trás.

426 – Ainda é possível se curar em Lourdes. Mas que milagre se pode esperar de um neurologista?

427 – O psiquiatra está para o psicólogo assim como o astrólogo para o astrônomo. O fator astrológico desde sempre desempenhou um papel na ciência psiquiátrica. Primeiro, nossas ações eram determinadas pela posição dos corpos celestes. Depois, os astros de nosso destino se encontravam em nosso seio. Depois veio a teoria da hereditariedade. Agora, os astros de nosso destino estão no seio de nossa ama-de-leite, pois se ela agrada ao lactente, isto é determinante para o resto de sua vida. Tornamos as impressões sexuais da infância responsáveis por tudo o que acontece depois. Foi louvável acabar com a crença de que a sexualidade só começa depois da maturidade. Mas não se deve exagerar. Mesmo que tenham passado os tempos em que se praticava a abstinência de conhecimentos, não é por isso que se deve se entregar desenfreadamente ao prazer da investigação sexual. – Meu pai – ironiza o bastardo de Gloucester [Em Rei Lear, de Shakespeare] – se uniu à minha mãe sob a Cauda do Dragão, a hora do meu nascimento está sob a Ursa Maior; segue-se, portanto, que tenho de ser rude e lascivo. – E, no entanto, era mais belo depender do Sol, da Lua e das estrelas do que das forças do destino do intelectualismo!

428 – A ciência mais antiga se negava a reconhecer o instinto sexual nos adultos. A nova ciência aceita que já o lactente experimenta a voluptuosidade no berço. A concepção antiga era melhor. Pois, ao menos, certas declarações dos envolvidos a contradiziam.

429 – Os novos investigadores da alma dizem que tudo deve ser atribuído a causas sexuais. Por exemplo, podíamos explicar seu método como um erotismo de confessor.

430 – Aos neurologistas que nos transformam em caso patológico o gênio, deveríamos quebrar a caixa craniana com as obras com as obras completas deste. Não se deve proceder de outra forma com os representantes da humanidade que deploram a vivissecção de cobaias e deixam que se usem obras de arte para fins experimentais. A todos aqueles propensos a comprovar que a imortalidade se reduz a uma paranoia, a todos os auxiliares racionalistas da humanidade normal que a tranquilizam que ela não se inclina para obras do espírito e da imaginação, pisemos-lhes o rosto com a sola do sapato onde quer que nos apoderemos deles. Sha­kespeare, um louco? Então, que a humanidade caia de joelhos e, temerosa de seu próprio estado de saúde, implore mais loucura ao Criador!

431 – Patologia nervosa: se não falta nada a alguém, a melhor maneira de curá-lo desse estado é lhe dizer qual doença ele tem.

432 – Os neurologistas modernos transformam o doente em conselheiro. O doente adquire uma autoconsciência do inconsciente que é sem dúvida elevada, mas não exatamente auspiciosa. Ao invés de ser enxotado do forno dos problemas, ele é contido para tos­tar ali; ao invés de distanciamento, cria-se uma intimidade com os seus padecimentos, uma espécie de orgulho dos sintomas que, no caso mais favorável, coloca o paciente em condições de empreender curas psíquicas em outros que não obtiveram melhor resultado. No todo, um método que, a olhos vistos, torna mais rapidamente um leigo num perito do que um doente numa pessoa sadia. Pois é como fator de cura que atua essa ob­servação de si mesmo, a qual é precisamente a doença. No en­tanto, ela não é nenhum soro para a alma.

433 – Com que falta de perspectiva a medicina descreve os sintomas de uma doença! Eles sempre se adéquam aos males imaginados.

434 – O Momo papão é um expediente pedagógico indispensável na vida fa­miliar alemã. Com adultos, o meio de amedrontá-los é ameaçar chamar o psiquiatra.

435 – Os loucos são sempre reconhecidos como tais pelos psiquiatras quando, depois de involuntariamente internados, exibem um comportamento exaltado.

436 – A diferença entre os psiquiatras e outros doentes mentais é mais ou menos a relação entre a demência côncava e a convexa.

437 – Os pedantes continuam só podendo ler da direita para a esquerda: vêem a vida como névoa. 

438 – A ciência não lança pontes sobre os abismos do pensar; está à frente apenas como placa de advertência. Os infratores têm de responsabilizar a si próprios.

439 – Sob o signo da alucinação, cambalear pela vida – este poderia ainda ser um caminho mais íntegro que o do iniciado que segue apalpando ao longo dos abismos.

440 – A religião é chamada visão de mundo comprometida. Mas ela está comprometida no universo, e o liberalismo está livre no distrito.

441 – Se numa cidade a estupidez se alastra, que ela seja declarada contaminada. Mas então nenhum caso pode ser encoberto. Pois facilmente pode ocorrer que um imbecil entre e saia de uma casa em que habitam crianças. Em épocas como esta, recomenda-se o fechamento das escolas, não, como se poderia supor, a abertura de escolas.

442 – Que cultura é a essência daquilo que se esqueceu, é uma boa percepção. Além disso, cultura é uma doença e um fardo para o ambiente da pessoa educada. Uma reforma do ensino que trabalhe pela abolição das línguas mortas com a argumentação de elas justamente não servem para a vida é ridícula. Só se precisássemos delas para a vida é que elas deviam ser abolidas. Certamente, elas não nos ajudarão a perguntar um dia nosso caminho através dos monumentos em Roma ou Atenas. Mas plantam em nós a capacidade de imaginá-los. A escola não serve para o acúmulo de saber prático. A matemática, porém, purifica as vias cerebrais, e, mesmo quando temos de decorar as datas que, logo após a saída, serão esquecidas, não estamos fazendo nada de inútil. Falho é apenas o ensino da língua alemã. Mas, em compensação, a língua alemã pode ser aprendida por intermédio do latim, que ainda tem esse valor especial. Quem faz boas composições em alemão, tornar-se-á um caixeiro alemão. Quem faz más composições, mas é aprovado em latim, talvez se torne um escritor alemão. O que a escola é capaz de fazer é descartar aquela bruma das coisas vivas da qual brota a individualidade. Se, passados muitos anos, alguém ainda sabe de que drama clássico e de que ato provém uma citação, então a escola fracassou em seu objetivo. Mas se esta pessoa sente onde a citação poderia estar, então ela é verdadeiramente cultivada, e a escola alcançou integralmente seu objetivo.

443 – Não era a palmatória que tinha de ser abolida, mas o professor que a emprega mal. Como todo remendo humanitário, esta reforma do ensino é uma vitória sobre a imaginação. Os mesmos professores, que até aqui não foram capazes de formar uma opinião sem um livro escolar, deverão agora se concentrar afetuo­samente na individualidade do aluno. A humanidade afastou o pesadelo do medo da “convocação”, mas a vida estudantil sem perigo será ainda mais insuportável que a vida estudantil perigosa. Entre “excelente” e “inteiramente insuficiente” havia margem para vivências românticas. Não gostaria de ter de enxugar de minha recordação o suor pelos troféus da infância. Com a punição se foi também o estímulo. O colegial vive sem ambição como um filósofo sorridente e entra sem preparo no arrivismo da vida, que seu caráter outrora antecipara sem perigo, como o corpo vacinado à varíola. Ele provara todos os peri­gos da vida até o suicídio. Ao invés de expulsarem os professores que, para ele, fizeram o jogo dos perigos se tornar coisa séria, decreta-se a seriedade da vida ordenada. Antes, os alunos vivenciavam a escola; agora têm de se deixar formar por ela. Com os arrepios, expulsou-se também a beleza, e o jovem espí­rito se encontra ante a parede de cal de um céu protestante. Os suicídios de estudantes – cujo motivo era a estupidez de pais e mestres – cessarão, e o tédio permanecerá como motivo legítimo para o suicídio.

444 – Uma cultura extensa é uma drogaria bem provida; mas não há nenhuma segurança de que o cianeto de potássio não será dado para um resfriado.

445 – Se alguém é considerado possuidor de uma cultura universal, talvez ainda tenha uma grande chance na vida: não possuir, afinal, uma cultura universal, apesar disso.

446 – Ora, então não há garantia contra o erro de impressão que, tantas vezes quanto for preciso falar de uma erudição estúpida, a transforme  numa estupenda?

447 – Numa cabeça oca entra muito saber.

448 – A cultura pende no seu corpo como a roupa num modelo de alfaiate. Na melhor das hipóteses, tais eruditos são manequins de moda  do progresso.

449 – Homens da ciência! Fala-se muita coisa sobre ela, mas quase sempre sem razão.

450 – O valor da  cultura se manifesta mais claramente quando os homens cultos tomam a palavra para falar de um problema fora de seu domínio cultural.

451 – Disputa-se há muito tempo se Goethe ou Schiller é o mais popular entre os alemães. E, no entanto, com suas palavras “Franz se chama a canalha”, Schiller não exerceu nem de longe o profundo efeito que, por força de sua redação geral, estava reservada a frase que o Goetz, de Goethe, dirige ao capitão. Ora, já que há décadas não se passa um dia de audiência sem que os relatórios não se refiram ao fato de que o acusado endereçou ao queixoso a “conhecida intimação do Goetz, de Goethe”, fica claro que, entre os alemães, a fama de Goethe e mais sólida. A maneira como o povo homenageia seus intelectos não resulta apenas do fato de ter descoberto rapidamente nas obras de Goethe a passagem que parece a mais saborosa à língua alemã, mas também do fato de que hoje ninguém mais é tão inculto para utilizar a locução sem se referir a Goethe.

452 – Graças à lavagem normal, o elevado pensamento alemão tomou, através da unidade, o caminho da sujidade.

453 – Os alemães se sentam à mesa de uma cultura na qual o fanfarrão é o mestre-cuca.

454 – Seja manufatura ou literatura, jurisprudência ou música, medicina ou teatro: ante a onipotência do burocrata não há, no mundo do Espírito Santo, escape.

455 – Originalmente destinado ao comércio, dedicou-se mais tarde, com efeito, à literatura.

456 – O novo Siegfried. Na imensa transformação da idéia anteriormente associada a esse nome, é possível reconhecer a superioridade de seu portador atual. Sua pele não tem mais um ponto que não seja caloso, e ele conhece o caminho do tesouro melhor que o outro, pois tem o mapa.

457 – Chegará o tempo em que o tosão de ouro será coberto pelo bezerro de ouro.

458 – E se fosse o caso obter uma condecoração com a indulgência dos direitos humanos, nossos contemporâneos se esfolariam os pés. O que os prende à sociedade são galões, e os seus excluídos são mártires que não receberam nenhuma cruz. Esta é a velha lengalenga da estupidez que gostaria de ser vista se, como reconhecimento de sua contribuição para o fim do mundo, uma estrela lhe caísse sobre a cabeça.

459 – Com frequência as pessoas sonham que podem voar. Agora é a humanidade que sonha com isso; mas ela fala muito durante o sono.

460 – A Terra se mobiliza desde que os seres humanos empreendem a conquista do ar.

461 – A natureza exorta a uma reflexão sobre uma vida assentada sobre exterioridades. Por toda parte manifesta-se uma insatisfação cósmica; neve no verão e calor no inverno são demonstrações contra o materialismo que transforma a existência num leito de Procusto, que trata as doenças psíquicas como dor de barriga e que quer deformar o semblante da natureza onde quer que distinga seus traços: na natureza, na mulher e no artista. Um mundo que suportaria seu próprio fim, contanto que não se lhe recuse a exibição cinematográfica deste, não pode ser amedrontado com o incompreensível. Mas aqui nós aceitamos facilmente um terremoto como um protesto contra as conquistas do progresso, e não duvidamos, em nenhum instante, da possibilidade de que um excesso de estupidez humana possa enfurecer os elementos.

462 – Depois do fim de Messina: dá certo sossego sentir essa fúria da natureza contra a civilização como um dócil protesto contra as destruições provocadas pela civilização na natureza. O que a civilização fez das florestas, o que fez das mulheres! Por meio de uma grandiosa homenagem, a natureza se deixaria apaziguar, por meio de uma festa sacrifical da generosidade para um fim generoso. Que o amor cristão se esqueça de ser cristão! Samaritanas, aproximai-vos! Samaritanos, aproximai-vos! Aproximai-vos todos vós que só dais a contragosto! É possível substituir povos inteiros num dia. É possível acumular riquezas e erguer cidades num dia. Um dia para celebrar num mundo inteiro preenchido por lamentos fúnebres.

463 – A tarefa da religião: consolar a humanidade que caminha pa­ra a forca; a tarefa da política: torná-la desgostosa da vida; a tarefa do humanismo: abreviar a sua espera pela forca e envenenar a comida do carrasco.

Notas explicativas para alguns aforismos
(Com base nas notas da tradução brasileira, de Márcio Suzuki e Werner Loewenberg. e nas notas da tradução para o inglês, de Jonathan McVity)

388 – Exolftalmia é a projeção do globo ocular para fora de sua órbita; uma abertura exagerada dos olhos. CTC

392 – Otto von Bismarck (1815-1898) foi o “chanceler de ferro” que unificou a Alemanha sob a liderança da Prússia. CTC

394 – Conforme Jonathan McVity, alguns amantes da ópera desprezam Karl Kraus porque ele gostava da obra do prolífico compositor alemão Jacques Offenbach (1819-1880), considerado o pai da opereta francesa e um dos mais populares compositores do século XIX. As referências de Kraus neste aforismo são de operetas de Offenbach. CTC

396 – A frase entre aspas é de Hamlet: “And makes us rather bear those ills we have, than fly to others that we know not of”. Está na mesma fala do “Ser ou não ser…” Usei nesta adaptação a tradução de Millôr Fernandes. (Porto Alegre: L&PM, 2002, p. 63). CTC

398 – Páthos é paixão em grego. A palavra é usada para exprimir sentimentos de dó, compaixão, simpatia, piedade ou melancolia provocados por obra literária ou artística. CTC

406 – No original, ein X fur ein U vormachen: expressão idiomática significando lograr, enganar. (Nota da edição brasileira)

408 – Sublime Porta é o nome dado ao governo otomano, no tempo dos sultões. (Nota da edição brasileira)

413 – Filisteu, conforme o Aurélio, se refere ao povo não semita e inimigo dos hebreus que habitava a Filistéia, ou Palestina, desde o século XII a.C. Pejorativamente, é usado para definir pessoas incultas e cujos interesses são estritamente materiais, vulgares, convencionais. CTC

420 – A divinis = como uma divindade. CTC

425 – A Dança de São Guido, também conhecida como Coréia, é uma doença nervosa e reumática que provoca movimentos involuntários e irregulares – como caretas. O monastério de Echternach foi fundado por Santo Willibrord (658-739). CTC

427 – O vilão e filho bastardo do Conde de Gloucester se chama Edmundo, personagens de Rei Lear, de Shakespeare. CTC

428 – Segundo McVity, depois uma aproximação inicial com Sigmund Freud, Kraus acabou se tornando um dos críticos contemporâneos mais amargos da psicanálise. Em troca, os psicanalistas ridicularizaram Kraus e seus seguidores, tachados de sádicos. CTC

437 – Jogo de palavras entre Leben (vida) e Nebel (névoa). (Nota da edição brasileira)

451 – Referências aos livros Os Bandoleiros, de Schiller e Gotz von Berlichigen, de Goethe.  A frase de Gotz, numa tradução livre do inglês, é essa:  “Diga isso ao capitão: como sempre, eu tenho todo o respeito por sua Majestade Imperial. Mas por ele,  diga a ele que ele pode me puxar o saco”. CTC

452 – Jogo de palavras entre Einheit (unidade) e Unreinheit (sujidade). (Nota da edição brasileira)

454 – Em alemão, Kommis significa também caixeiro, empregado de comércio. (Nota da edição brasileira)

455 – McVity diz que Kraus refere-se a Heinrich Heine (1797-1856), poeta, jornalista e satírico alemão, e que ambos, Kraus e Heine, provêm de famílias de negócios e se dedicaram às letras, mas Heine faliu como empresário antes de ir para a universidade. CTC

456 – Nobre teutônico da mitologia germânica, um órfão que se transformou em herói, Siegfried, entre outras façanhas, matou o dragão que guardava o tesouro dos Nibelungos. Para ficar invulnerável, untou o corpo com o sangue do dragão, exceto num ponto das costas. (Nota da edição brasileira e de CTC)

461 – Procusto é personagem da mitologia grega. Possuía uma cama de ferro feita em função de suas medidas. Seus hóspedes eram convidados a se deitarem nela. Se eram maiores do que a cama, Procusto amputava do hóspede o que sobrava. Se eram menores, ele esticava-os até caberem na medida. Capturado por Teseu, foi preso lateralmente na cama e perdeu a cabeça e os pés, do mesmo jeito que fazia com seus hóspedes.

466 – A cidade de Messina, na Sicília, foi arrasada por terremotos em 1783 e 1908.

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