Todo sábado, revoada de branco na Praça Vermelha

O casal de noivos chega à Praça Vermelha, em Moucou, em outubro de 1984, para depositar flores no mausoléu de Lênin; ao fundo, a imensa fila para ver o corpo mumificado do líder.<br />Foto de Caio Túlio Costa

O casal de noivos chega à Praça Vermelha, em Moucou, em outubro de 1984, para depositar flores no mausoléu de Lênin; ao fundo, a imensa fila para ver o corpo mumificado do líder. Foto de Caio Túlio Costa

Em Moscou também se casa aos sábados. As noivas envergam os longos vestidos brancos e os casais vão a uma repartição pública oficiar o enlace. Os mais religiosos podem ir à igreja. Depois da cerimônia, o inusitado. Os noivos e os padrinhos tomam um daqueles velhos carros pretos todo enfeitado com flores e tiras de papel e se dirigem até a Praça Vermelha. Ali iniciam um ritual que começa com a colocação de flores junto ao Túmulo do Soldado Desconhecido e termina com nova deposição de flores numa solene visita ao Mausoléu Lênin onde está exposta à visitação pública a múmia do maior ídolo soviético, Vladimir Ilich Ulianov, o Lênin, fundador do Estado soviético, mítico e cultuado herói da revolução russa.

Fui ao mausoléu num sábado. Desde às 10 da manhã, faça sol, chuva ou neve, de terça a domingo, milhares de soviéticos e alguns turistas se concentram em uma caudalosa fila para ver Lênin dentro de uma urna de vidro. Há um local exato para os estrangeiros furarem a fila e gastarem apenas 20 minutos contra os 45-90 que os soviéticos esperam ordenadamente. Eu, convi­dado, pude entrar quase imediata­mente. Quando olhei para trás vi um casal de noivos acompanhado dos padrinhos chegando à porta do mau­soléu. Imediatamente o guarda parou a fila e fez os noivos subirem as escadas. Na entrada eles deixaram as flores e depois seguiram junto dos outros contornando silenciosamente a urna onde se pode ver, fortemente iluminado, o corpo de Lênin, deitado, de terno e sapatos, a cabeça e as mãos visíveis.

Confesso que desconfiei tratar-se de um boneco de cera, mas guias estrangeiros e um jornalista norte­-americano –- além das autoridades soviéticas – garantem ser aquele o corpo do velho líder conservado através de um sofisticado processo de embalsamamento.

Ao sair dali fui buscar a máquina fotográfica (é proibido fotos dentro do mausoléu) pois em 25 minutos havia contado 53 casais desembar­cando para o ritual. Informaram-me depois que a média é de 200 casais para cada sábado. No dia mais feliz de sua vida eles vêm lembrar as pessoas que possibilitaram essa feli­cidade”, explica candidamente meu guia soviético. O fenômeno é real­mente espontâneo e se repete nas cidades soviéticas junto a monumen­tos históricos. É certo, nem todos os casais se entregam a esta contem­plação ideológica. Mas ela já está disseminada a ponto de ter se transformado num costume mecânico e o episódio das noivas do Krernlin, estranho aos olhos ociden­tais, vem dar conta do profundo enraizamento da revolução soviética.

Primeira imagem

Passei exatos quatorze dias na URSS. Minhas impressões são super­ficiais e não passam de meras observações apressadas de um via­jante curioso. A constatação, embora banal, é única: os soviéticos cons­truíram um grande país, mas o moral da população é baixo. De um povo reconhecidamente apaixonado e hos­pitaleiro, paradoxalmente, o que se vê nas ruas são expressões sérias, compenetradas, disciplinadas e semi­-angustiadas. Dos transeuntes apressados de Moscou aos mais relaxados em Tallin, capital da Estônia. E a atmosfera geral, para os que chegam do Ocidente, é a de um verdadeiro mergulho nos anos cinqüenta em termos de vida, modos e costumes.

Meu vôo, o 720 da Air France, aterrizou pontualmente numa terça-­feira de outubro no aeroporto inter­nacional de Sheremetevo em Moscou. Estava iniciando a viagem por qua­tro países da URSS. O próprio embaixador viera à Folha convidar um jornalista para uma estada turís­tica em seu país. O convite era da Intourist, a organização estatal res­ponsável pelo turismo soviético. Este dossiê traz apenas algumas anota­ções de quem vai pela primeira vez à URSS, pequenos detalhes e observações que não cabem nas reportagens que sairão a partir desta semana no suplemento de Turismo.

Mas, eu estava desembarcando na mitológica Moscou sem saber de nada do que haviam preparado para mim. Nos contatos anteriores com o pessoal da representação comercial no Rio eu soubera apenas que ida conhecer Moscou, Leningrado, Tal­lin, Riga, e Vilnius, estas três capitais das repúblicas chamadas pré-bálticas pelos russos (Estônia, Letônia e Lituânia) porque estão próximas do mar Báltico na parte noroeste da União Soviética formada por 15 repúblicas, a Rússia entre elas.

Ao sair do avião, a primeira imagem: guardas do Exército for­mam uma espécie de corredor, um a cada quatro metros, enquanto os passageiros se encaminham para o rígido controle dos passaportes. Nu­ma pequena cabine, três jovens soldados, dentro de uma vistosa farda verde-oliva, examinam deti­damente o passaporte e o visto de entrada, um documento separado. Na URSS não carimbam o passaporte. No meu inexiste vestígio da passa­gem por lá. Olham seus documentos, encaram seu rosto, observam de lado. Abaixam os olhos e conferem a foto. Comigo, embatucaram. No visto vinha escrito “imprensa”. Na parte reservada ao motivo da viagem estava grafado turismo. “Como o senhor vem fazer turismo e não tem ‘voucher’ do hotel?” Explico que era convidado da Intourist quando ouço uma moça chamar-me pelo nome. Logo em seguida aparece um jovem de calça jeans e tênis falando português de Portugal. Informa que será meu guia. Ele mesmo dá as explica­ções, agora ao oficial chamado para resolver minha situação. Começa então o controle das bagagens. A maleta de mão é rápida e cuidado­samente revirada. Toda a bagagem é radiografada e fotografada dentro de um enorme aparelho marca Phillips. Ali se confere também uma preciosa declaração assinada por todos os estrangeiros indicando que não trazem armas, narcóticos e declarando quanto trazem de dinheiro e quais jóias portam. Eles estão preocupados com o contrabando de drogas e de jóias antigas, russas, riquíssimas e valorizadas no Ocidente.

Saímos finalmente. Um automóvel, negro, marca Volga, de quatro portas, nos espera. Precisamos acordar o motorista que dorme no banco dianteiro, barba por fazer, mãos sujas. Ele me abre um sorriso e vejo o primeiro dente de ouro de uma série infinita que verei depois. Tomamos uma auto-estrada de quatro pistas até Moscou. São 28 km feitos em quarenta minutos na marcha lerda do Volga. Fico sabendo que o guia, Serguei Lobanov, 24 anos, me acompanhará durante toda a viagem pela URSS. Estudou português na Universidade onde se formou em Geografia. Desenvolveu o vocabulário em Angola durante sete meses quando trabalhou num escritório soviético. Conhece Portugal e a França. Sua tese é sobre economia africana. É militante do Konsomol, a organização comunista dos jovens. Me informa que na manhã seguinte temos encontro com diretores da Intourist e à noite partimos num comboio, o Flexa Vermelha, rumo a Leningrado. É só.

Suntuosa Moscou

O Volga preto vai entrando na cidade. Estamos ainda na periferia e, dos dois lados, prédios e mais prédios de apartamentos, todos idênticos, quatro andares, construídos na década de quarenta. Adiante vejo edifícios mais novos de sete andares, anos setenta. Apesar de ser uma terça-feira o trânsito lembra o de um dia de feriado em São Paulo. Poucos carros circulando. Nenhuma buzina, nada de engarrafamentos. Muitos tróleibus e caminhões, a maioria verde, do Exército. A temperatura, 11 graus, é agradável e as crianças brincam nos parques. Um terço da cidade de Moscou é coberto de verde. Nas calçadas, mulheres caminham apressadas com sacolas, os homens com pastas de couro, modelo 007. As cores do outono estão fortes. Folhas amareladas formam um imenso tapete nos jardins e alamedas. À medida que o carro se aproxima do centro, a cidade se deixa ver, suntuosa, na sua arquitetura pré-revolucionária. Não há como conter a emoção ao chegar na praça que hoje se chama dos Cinqüenta Anos da Revolução e olhar a silhueta imponente do Kremlin, velha fortaleza czarista, transformada no centro do poder soviético. Tanto em Moscou como em Leningrado – considerada com justiça uma das mais belas cidades do mundo – a velha arquitetura desmonta a guarda de qualquer ocidental preconceituoso.

Fico no Hotel Nacional, um prédio velho, construído no século passado. Na recepção recolhem e guardam meu passaporte. Minha rotina seria a mesma durante quatorze dias. Café da manhã às 9h30. Passeios pelas cidades, museus, encontros com autoridades. Almoço às 13 horas. Tarde de passeios a museus ou pequenas cidades. Duas horas no hotel para descanso e anotações. Balé, circo ou cinema às 19 horas. Jantar às 21h30 ou 22 horas. Sempre com o guia do lado, tomando café, almoçando, jantando, viajando de trem. Uma conversa franca, inteligente, porém ideológica. Em cada cidade que chegávamos havia sempre o carro oficial esperando e mais um guia local. Apesar da rotina, eu pude dar tranquilamente várias escapadas para andar pelas ruas de manhãzinha antes do café ou à noite, depois do jantar.

SEGUNDA PARTE

A cara e difícil busca de status, isto é, de jeans e tênis

Do que pude ver e sentir fica uma constatação: a enorme burocracia soviética – todos os cidadãos são funcionários do governo centralizado e autoritário – criou um monstro poderoso que se arrasta e vive contradições gritantes aos olhos de um ocidental. É impossível de se entender como uma nação que coloca uma sofisticadíssima nave Soyus no espaço não consegue, por exemplo, fabricar um isqueiro que funcione direito. Todos os produtos – dos talheres às roupas, da caneta ao automóvel – são feitos com um material “de segunda”. Correto, há vestimenta para todos. Mas todas iguais; muda apenas a cor. O maior símbolo de status hoje na URSS é uma calça jeans com o corte ocidental. Os jovens são tarados por estas calças mais largas que apelidaram de “modelo banana”. Cobiçam ternos finlandeses e chegam a pagar 100 dólares no câmbio negro por um tênis Nike.

Não vi mendigos. Parece que todo o país é formado por uma imensa classe média baixa, Os privilégios ficam apenas com os altos membros da burocracia. São poucos os que possuem um automóvel ou podem ter urna dacha no campo para os fins-de-semana. Aos sábados, um dos espetáculos mais chocantes é acompanhar o desembarque daquela enorme massa de camponeses e interioranos que vêm a Moscou para as compras, lotando as estações do metrô. Vestidos numa roupa surrada, carregam sacolas e sacos. Passam depois horas em fila para adquirir um modelo novo de sapato e mantimentos.

O salário mínimo é hoje de 80 rublos, equivalente a Cr$ 200 mil. Ninguém ganha menos do que isto. Oficialmente, não há desempregados. Qualquer cidadão que quiser trabalho encontra um. Nas cidades mais populosas. Todos querem morar nas cidades mais populosas porque a vida é mais fácil e as filas menores. Em cada hotel que estive havia mais de uma funcionária por andar só para cuidar das chaves dos quartos. Ficavam ali, sem fazer nada o dia inteiro. Sente-se a abulia no ar. E nada funciona bem sem uma gorjeia. Do hospital (gratuito) à lavagem de uma camisa no hotel.

Um russo médio, que pode viver em Moscou (e para isto ele precisa ter a propiska, um documento em seu passaporte interno, que permite a moradia em Moscou) e trabalha na parte de serviços ganha cerca de 150 rublos (Cr$ 380 mil) mensais. Um bom salário. Ele vai gastar apenas 30 rublos (Cr$ 75 mil) de aluguel – no qual está incluído água, luz, calefação, telefone e gás – para um apartamento de dois quartos, sala, cozinha e banheiro. Como a economia é toda artificial, não existe inflação, e há anos que o litro de leite custa 28 copekes (28 centavos de rublos) o equivalente a Cr$ 700. Um quilo de peixe custa 60 copekes (Cr$ 1.500); 1 quilo de carne 2,8 rublos (Cr$ 7 mil); 1 quilo de arroz 90 copekes (Cr$ 2.250) e uma bisnaga de pão branco 18 copekes (Cr$ 450). Os utensílios domésticos já são bem mais caros: uma geladeira vale 300 rublos (Cr$ 750 mil), uma TV a cores está entre 650 e 700 rublos (Cr$ 1,7 milhão); um rádio transistor 100 rublos (Cr$ 250 mil); um sapato para homem ou mulher 30 rublos (Cr$ 75 mil) e um vestido 3,5 rublos (Cr$ 87.500).

É certo que nem todos podem viver em Moscou que tem hoje mais de oito milhões de habitantes. Por isto, incentiva-se a ida a outras partes da União Soviética necessitadas de mão-de-obra como de ar. Basta ver que um casal sem filhos paga um imposto de 6 rublos (Cr$ 15 mil) mensais ao Estado. Um mineiro que vai para a Sibéria – cujo salário médio em outras regiões é dos maiores, 400 rublos (Cr$ 1 milhão) – pode ganhar até mil rublos por mês. Mas poucos querem ir dar duro na planície gelada. Com um salário de 400 rublos é possível comprar um automóvel, o apartamento, e uma dacha, que pode ser particular. O carro mais barato, o Zaporojetz, custa 5.500 rublos (Cr$ 13,7 milhões). Perguntei ao guia qual o salário de um membro do Politburo: “Ninguém sabe”.

Mas, meu contato com os diretores da Intourist e com altos funcionários dos ministérios de Turismo, nas repúblicas pelas quais passei revelaram a mesma vestimenta e um sóbrio estilo de vida. Detalhe curioso, todos fumam cigarros ocidentais. Um maço de Marlboro, comprado a preço exorbitante no câmbio negro, é símbolo de status hoje na URSS. “Não suporto o tabaco soviético”, me disse um funcionário.

A propaganda estimula um certo consumismo. Os cidadãos podem vê-la principalmente na TV. País inteiramente eletrificado, todas as casas, nas mais distantes aldeias, tem televisão. “Socialismo é eletrificação mais o poder soviético” era a grande palavra de ordem do velho Lênin nos inícios da revolução. As vitrines, mal cuidadas em Moscou e Leningrado, mas bonitas e “elegantes” nas capitais das repúblicas bálticas incentivam também o consumo dos sofríveis produtos da indústria soviética. No início da noite a televisão dedica 15 minutos aos reclames do novo modelo de toca-discos ou aparelho de televisão, o tapete para a sala, o sapato ou bota nova, o último modelo de chapéu para o frio (que é sempre o mesmo), uma calculadora ou um relógio digital, um brinquedo que vai quebrar assim que a criança tocá-lo. O problema da qualidade, definitivamente, não foi resolvido. Tudo dá a impressão de que a URSS está vinte anos atrás do Ocidente capitalista.

Rádio, TV, jornais

Existem três estações de rádio em Moscou. Os aparelhos receptores possuem uma tecla fixa para cada estação, não há dial para procurá-las. A BBC é ouvida em rádios importados pagos a peso de ouro no contrabando. Uma das rádios toca música russa sempre que não está transmitindo noticiário, em outra é possível ouvir alguma melodia ocidental e a propaganda ideológica é constante. Há quatro canais de TV em Moscou e três nas outras cidades que visitei. Transmitem concertos e balé clássico; velhos filmes ingleses, franceses e norte-americanos; muito esporte – praticamente um jogo de futebol e hóquei sobre gelo todos os dias –; programas de informação sobre as últimas conquistas na indústria e no campo; perfis de operários modelos; reportagens sobre fábricas que ultrapassaram as metas previstas e noticiário. Martela-se nos informativos a necessidade da paz e os esforços que os EUA fazem para atrapalhar a negociação do desarmamento espacial. A URSS constrói e gasta fortunas incalculáveis em mísseis e armas e só fala em paz. Considera-se a dona da paz. É a palavra mais ouvida na TV, nas rádios, nas faixas com “slogans” penduradas nas paredes dos edifícios e nos jornais. Os programas noticiosos informam muito sobre a Nicarágua, Angola, Moçambique e Líbano. Nada do Afeganistão. Toda a notícia vem acompanhada da inevitável análise ideológica a denunciar sistematicamente a “ação do imperialismo norte-americano”.

No dia em que cheguei observei que todas as estações haviam interrompido sua programação normal para entrar em cadeia e transmitir a gravação do discurso de Konstantin Tchernenko (o líder máximo do Partido Comunista e do governo) por ocasião da abertura do Congresso dos Escritores Soviéticos. Como não falo o russo nada pude entender. Soube depois que ele discorreu sobre o desenvolvimento da “literatura” soviética (oficialesca) e tocou na necessidade de se caminhar rapidamente ao comunismo, etapa ainda não alcançada segundo o entender da burocracia. Falou durante 25 minutos. Cabelos muito brancos, a boca semi-aberta. Colocou os óculos para ler. Sua voz é arfante, cansada, ele se apóia com os braços na tribuna. A estátua de Lênin – presença obsessiva nas ruas, praças e repartições – sempre atrás.

No dia seguinte, o jornal para estrangeiros, “Novidades de Moscou”, editado em inglês, espanhol e francês, traz a íntegra do discurso. Há muitos jornais nas cidades. O “Pravda” (“Verdade”) órgão oficial do Partido Comunista e o “Izvestia (“Notícia”) estão à venda em qualquer banca. Alguns soviéticos dizem preferir o “Izvestia”, “menos pesado” do que o “Pravda”. Não há notícia no sentido ocidental do jornalismo objetivo e independente. São jornais do partido, que é único. Para o leitor brasileiro ter uma idéia, é como se no Brasil só pudessem existir jornais do PDS, supondo que só existisse um partido, sem possibilidade de renovação partidária no governo. Nos jornais só se fala na necessidade de maior produção industrial e agrícola, de mais paz e, de vez em quando, críticas de filmes e livros. As pequenas notas, noticiosas, são raras. Há gazetas esportivas compradas e lidas avidamente por todos. O número de páginas é sempre o mesmo. O “Pravda” sai com seis páginas diárias e oito nas segundas-feiras, o máximo. Há revistas de moda, de comportamento e até uma especial chamada “Novos Tempos” – “o nosso ‘Time’, semanal”, explica meu guia – que edita um amplo noticiário internacional.

As artes

Nas artes “mortas”, para usar uma imagem forte, os soviéticos são insuperáveis. Dançam maravilhosamente um Prokofiev. Possuem e mimam o Bolshoi (a palavra significa grande) a maior companhia de balé do mundo. Tocam divinamente um Brahms ou um Mozart, mas se arrebentam com o cinema, a literatura e o teatro oficiais. Tudo o que depender de independência para criação artística não consegue ser produzido. Se a arquitetura pôde respirar no início da revolução, quando tudo ainda era uma aventura inédita e criativa, agora logra apenas edifícios monotonamente iguais, verdadeiros caixotões despejados sobre todas as cidades. Há um ou outro prédio moderno, mas sem a marca arrojada de uma arquitetura inovadora e revolucionária.

O filme que faz mais sucesso em outubro em Moscou é “Tootsie” com Dustin Hoffmann, produção norte-americana. Este passou pela rígida censura que preserva a moral e os costumes. Fiz questão de ver um filme soviético “normal”. Os cinemas são mal cuidados, as paredes descascam, a projeção é ruim. O filme entra após uma sessão de propaganda e um documentário cacete sobre bom comportamento nas prisões soviéticas. Tive azar com a escolha porque o filme era uma science-fiction ingênua e descompromissada sobre um professor que faz transplantes de cérebros e acabou experimentando em si mesmo com a ajuda de um discípulo. Morre no fim.

A cantora “pop” mais popular é Alla Pugachova. Faz uma música que os nossos críticos considerariam pré-Elvis Presley. Um rock meloso e banal. Nas discotecas (que existem) se ouve Michael Jackson. Sua voz também ressoa nas rádios e circuitos internos dos hotéis. Os conjunos de música (e todo restaurante de hotel tem um) tocam de tudo, mas têm uma preferência pela melodiosa música italiana. Há videoclipes na televisão com os jovens cantores soviéticos. Rudimentares e descuidados. A dublagem nunca acerta o movimento da boca com a música.

TERCEIRA PARTE

No passeio noturno, conversa os gays

Toda a vida noturna acontece nos hotéis. Nas ruas, não existem aqueles bares e cafés, comuns no Ocidente, onde se vai bebericar e conversar. Eles estão nos hotéis onde se encontram também os melhores restaurantes. Os soviéticos podem freqüentar os night-clubs e restaurantes dos hotéis. Ali se encontram algumas moças dispostas a uma conversa e às vezes algo mais. Alta prostituição. Oficialmente a prostituição não existe. Os jovens casam-se cedo e mantêm relações sexuais muito antes do casamento. O aborto é legal. O homossexualismo é considerado uma doença e não há estatísticas oficiais sobre sua incidência. As drogas também são um assunto tabu.

Em uma de minhas escapadas pude constatar que, apesar da postura oficial, o homossexualismo e a droga são uma realidade na URSS como em qualquer país do mundo. Sexta-feira, voltando de Vilnius (a capital da Lituânia) a Moscou tive a noite livre. Jantei no hotel e às 23 horas fui dar um passeio noturno pela rua Gorki. Quando subo os degraus da passagem subterrânea sou abordado por um jovem de seus 17 anos que me pede fogo. Dou-lhe a caixa de fósforos. Ele a manipula com extrema habilidade para acender o cigarro na noite fria, contra o vento. Devolve a caixa. “Do you 1ike gay boys? (Você gosta de jovens gays?)” me pergunta em inglês. Explico que não era meu caso, mas se ele quisesse podíamos conversar porque eu, jornalista, tinha interesse em ouvi-lo. Este se desinteressa, mas dois outros rapazes pegam um rabo de conversa e se dispõem a bater um papo. Começamos a andar então pela escura rua Gorki – as ruas e praças são muito mal iluminadas e há pouquíssima gente à noite nelas – e Yuri e Kamenev (não são estes os nomes verdadeiros) de 23 e 21 anos respectivamente me ciceroneiam pelo “underground” moscovita. Mostram um restaurante considerado infecto porque só serve aos atores que se dobram ao teatro oficial e onde a entrada deles é proibida. Fico sabendo que existem filmes feitos clandestinamente: Que o faz-tudo Yevtuchenko, um dos mais independentes artistas soviéticos de hoje, não é bem visto entre os “intelectuais críticos”. Yuri vive de traduções do inglês. Creio que aproveita as noites para se prostituir com turistas e ganhar alguns dólares. Levam-me então até a praça Pushkin (o mais idolatrado poeta russo, grande crítico do czarismo). E lá, pude ver, é uma das “bocas” onde se faz tráfico de drogas em Moscou. Consomem haxixe e uma espécie de maconha. As transações são feitas sob olhares complacentes de alguns policiais. Cocaína, explicam, nunca viram. Voltamos conversando. Yuri não quer abandonar a Rússia. Vive relativamente bem ali, ironizando as autoridades e fazendo sua vidinha paralela. Tem vontade de conhecer Nova York, Paris e São Francisco, mas depois quer retornar à pátria. Já ouviu falar da banda “TaIking Heads”, de Laurie Anderson e lê Garcia Márquez e Jorge Amado (este, um best-seller lá). Não é como outros soviéticos típicos que adoram Arthur Hailey e Harold Robbins, também best-sellers. Reclamou do que ele considera a divisão de classes na URSS: uma classe “alta”, formada pelas autoridades que têm tudo e podem fazer tudo e a “baixa”, que trabalha, “sabe tudo” e faz o possível e o impossível para melhorar um pouco a vida e garantir algo para os filhos na esperança de dias melhores. Era quase uma da manhã quando voltei ao hotel. Foi a única conversa relaxada e franca que pude ter.

Furtos, comidas, bebidas

Os crimes não são noticiados. Existem, mas não há estatísticas. A hipocrisia chega ao auge do absurdo. Conheci no Hotel Nacional um turista alemão ocidental, Martin Rosowki, 26 anos, de Bochum, que havia desembarcado em Sheremetevo no sábado e foi ao banheiro. Deixou sua bagagem com as roupas do lado de fora. Quando voltou ela não estava mais lá. Procurou a polícia e comunicou que a bagagem sumira e devia ter, sido roubada. “Impossível, não há furtos aqui”, foi a resposta. “O máximo que pode ter havido é um extravio”. Ele não pôde fazer a queixa porque “necessariamente a bagagem tinha ido para algum hotel”, disse o guarda. Estava usando roupas de amigos que vieram junto e aguardava a segunda-feira para comunicar o fato à embaixada. Mas não resta dúvida de que uma valise com roupas ocidentais é cobiçadíssima por qualquer soviético e a possibilidade de furto é real. Falei com ele na segunda-feira por telefone. Nenhuma notícia da bagagem.

O fascínio pela “decadência” é tão grande que o dólar, comprado por 85 copekes no câmbio oficial, vale 3 rublos no câmbio negro. Fui abordado na rua em Leningrado, duas vezes, por rapazes que queriam “to exchange dolar (trocar dólar)”. Se forem pegos dá cadeia, pena prevista de até dois anos de reclusão.

A comida é muito boa e não causa grandes surpresas para um brasileiro. No café da manhã vem pão, café, leite, geléias, omeletes e queijos. No almoço sempre uma salada ou um caviar como entrada. A salada tem ovos, repolho, tomate, batatas, maionese… Depois vem sempre uma sopa e em seguida um prato de peixe ou carne, com arroz. No jantar a mesma coisa. Há muitas opções nos cardápios e pode-se escolher estrogonofes e outros pratos típicos. O sorvete é forte e bom. Há doces especiais e o café é preto e bem feito. A vodka é incomparável e de qualidades apreciadas pelo consumidor brasileiro. Há marcas que jamais chegaram por aqui, mas a conhecida Stolichnaya (o nome quer dizer da’ capital) é uma das mais consumidas. O vinho branco da Geórgia é o melhor, o da Moldavia dá azia. O champagne é bom, inferior ao francês, claro. Nas ruas é possível comprar copos de cerveja e água mineral em quiosques por apenas 30 copekes (Cr$ 750). A cerveja é intragável e vem sempre quente. Meia garrafa de vodka custa 4,5 rublos (Cr$ 11.500), caro para os padrões soviéticos; o vinho custa 4 rublos (Cr$ 10 mil) e o champagne 7,5 rublos (Cr$ 18.750). Mas, observa o jornalista norte-americano do “New York Times”, David Shipler, em qualquer mesa, em todas as casas e nos restaurantes que os russos freqüentam, há sempre uma garrafa de bebida. A Pepsi-Cola e a Fanta também são presenças gritantes. Há quiosques nas ruas onde as garrafinhas são compradas por 50 copekes (Cr$ 1.250).

Os soviéticos bebem muito. Quase sucumbi aos vários “nasdarovias” (brindes) que fizeram nos almoços que tive com autoridades da Intourist. Cada participante da mesa erguia no mínimo um brinde em nome da paz mundial e da confraternização entre os povos. As autoridades responsáveis pelo turismo têm um lema: “Ver, conhecer, compreender”. Esperam levar ainda este ano cerca de cinco milhões de turistas estrangeiros à URSS. Estão certos de que o viajante, em contato com a realidade socialista, poderá ter uma idéia diversa daquela que “os Estados Unidos fazem e propagandeiam”, explicou Irina Verschcova, a chefe-adjunta de Informação da Intourist. É a primeira vez que a Intourist convida um jornalista brasileiro para uma viagem deste porte. Em quatorze dias pude ver, conhecer e compreender muita coisa.

É claro, não existem favelas, ninguém passa fome na URSS, a população é visivelmente bem-alimentada e sadia. Mas, a burocracia, se resolveu bem o problema da distribuição de renda, não melhorou consideravelmente a qualidade de vida nestes 67 anos de revolução dita socialista; não resolveu o problema da produtividade e do autoritarismo e, lugar comum, mas inevitável, acabou criando um povo triste cuja menor dissidência é punida com hospitais para doentes mentais ou exílios siberianos. Há muitas meias palavras e decepções. O partido único impera com o apoio de um forte esquema militar.

Os russos contam uma piada que ilustra bem o que quero dizer. Estavam Stalin, Kruschev e Brejnev num trem chamado comunismo. O comboio parou de repente. Ficou uma hora parado e Stalin resolveu tomar uma providência. Foi lá fora e mandou fuzilar todos os maquinistas. Voltou e sentou-se. Nada. Passa mais uma hora e o trem fica parado. É a vez de Kruschev ir lá fora e, com um decreto, reabilitar postumamente os maquinistas. Inútil. O trem não anda. Então, Brejnev se levanta, fecha as cortinas do vagão e exclama: “Façamos de conta que o trem está andando!”

Mas os soviéticos vêm de todos os cantos das repúblicas para fazer uma fila interminável e ver Lênin e as noivas vão lá levar flores no dia do casamento. “No’Brasil vocês não têm um ídolo nacional para homenagear no dia mais feliz da vida?” perguntou meu guia. “Felizmente não”, foi a minha resposta.

O jornalista Caio Túlio Costa viajou internamente pela União Soviética a convite da lntourist, a empresa estatal responsável pelo turismo soviético. Reportagem publicada na Folha de S.Paulo em 28/10/84, à pág. 18.

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